Quando tenho ciúmes, estou a tentar controlar ou é algo mais?

Os ciúmes são muitas vezes difíceis de admitir e quase sempre desconfortáveis, mas ainda assim, profundamente humanos. Podem surgir de forma subtil ou até de maneira muito intensa. Num pensamento que não se afasta, ou numa sensação de insegurança. E, na maioria das vezes, não têm tanto a ver com o outro quanto pensamos, e tem mais a ver connosco.

Tem a ver com aquilo que sentimos, com aquilo que mais tememos e aquilo que dentro de nós, ainda procura segurança. Porque os ciúmes raramente nascem apenas no presente, mas sim de histórias internas. De experiências onde o amor foi incerto, comparado, retirado ou posto em causa. De momentos em que aprendemos, muitas vezes sem consciência que podíamos não ser suficientes.

E quando esse medo se activa numa relação, os ciúmes podem aparecer como uma tentativa de proteger, proteger de perder, de sofrer ou de reviver algo que já doeu. Mas aquilo que começa como protecção, pode facilmente transformar-se em controlo, em desconfiança e numa necessidade constante de validação.

Pouco a pouco, a relação pode deixar de ser um espaço de segurança para se tornar um espaço de tensão. O grande problema não são os ciúmes, é a forma como nos relacionamos com eles. Quando não são reconhecidos, os ciúmes ganham muita força dentro de nós. Podem expressar-se em acusações, em perguntas insistentes, em interpretações que nem sempre correspondem à realidade.

Quando isto é olhado com consciência, torna-se uma porta para um autoconhecimento maior e mais profundo.  Para perceber o que realmente está por trás daquela emoção e para identificar necessidades emocionais que não estão a ser escutadas.

Muitas vezes, por detrás dos ciúmes está um pedido silencioso: de precisar de me sentir seguro/a, de me sentir importante, e de saber que sou escolhido/a. E reconhecer isto exige coragem para não culpar imediatamente o outro, para olhar para dentro e para expressar o que sentimos com vulnerabilidade.

Relações conscientes não são relações sem ciúme, mas sim relações onde existe espaço para falar sobre eles sem julgamento. Onde a segurança se constrói através da comunicação, da presença e da consistência.

Na clínica, vemos muitas pessoas a chegarem com este desafio: querem confiar, querem sentir-se tranquilas na relação, mas algo dentro delas permanece em alerta. E é nesse lugar que o trabalho emocional acontece.

Quando existe autoconhecimento profundo, podemos começar a distinguir o que é do presente e o que pertence ao passado. Quando existe equilíbrio emocional, deixamos de reagir automaticamente e passamos a escolher como queremos responder. Os ciúmes deixam então de comandar a relação e passam a ser um sinal de que algo precisa de atenção, de cuidado, de compreensão. 

E é nesse caminho, entre a vulnerabilidade e a coragem que se podem construir relações mais conscientes, mais autênticas e verdadeiramente seguras.


Por Maria Gama – Equipa Silvia Dias

Deixe um comentário