

Nem sempre é o que se diz que cria distância numa relação.
Muitas vezes, é precisamente o contrário.
É aquilo que fica por dizer, repetidamente, ao longo do tempo.
Há um tipo de silêncio que não é ausência de conflito: é evitamento. Começa de forma quase impercetível: um comentário que se guarda, uma reação que se contém, um tema que se adia, porque “não é o momento certo”. E, em muitos casos, há até uma intenção positiva por trás disso: evitar tensão. Não ferir o outro. Manter alguma estabilidade.
Mas o que parece cuidado, com o tempo, transforma-se em afastamento…
Porque uma relação não se sustenta apenas pela ausência de conflito, sustenta-se pela presença de contacto. E esse contacto exige exposição. Exige que, em algum momento, aquilo que é sentido encontre forma de existir na relação.
Quando isso não acontece, cria-se uma espécie de vida paralela.
Por fora, a relação continua funcional. As rotinas mantêm-se, as conversas acontecem, as decisões são tomadas. Mas, por dentro… algo vai ficando por partilhar. E esse espaço não ocupado começa a crescer.

O que não é dito não desaparece! Organiza-se de outras formas: em irritação, em distanciamento, em desinteresse aparente, ou numa sensação difícil de explicar de que “algo já não é como antes”.
Muitas vezes, os casais chegam à terapia exatamente neste ponto. Sem um acontecimento claro, mas com uma perceção de perda de ligação.
E, quando se começa a explorar, não faltam temas, mas instalou-se no casal a falta de hábito de os trazer.
Curiosamente, muitos casais acreditam que estão a proteger a relação ao evitar certos temas. Mas, na prática, acabam por limitar a profundidade do vínculo. Porque não é possível ser verdadeiramente visto sem se mostrar. E não é possível sentir proximidade, sem algum grau de exposição.
Comunicar, neste contexto, não é falar mais. É falar de forma diferente! E isso implica criar espaço para que o outro possa aceder, não apenas ao que fazemos, mas ao que sentimos.
O trabalho terapêutico pode ser precisamente esse lugar intermédio: onde o silêncio começa a ganhar forma e o que estava contido encontra linguagem. Onde o casal aprende, gradualmente, a sustentar conversas que antes evitava.
Por Francisca Oliveira – Equipa Silvia Dias
