O que fazemos para não sermos vistos?

Para evitar o confronto com a vulnerabilidade?

Muitas pessoas chegam à psicoterapia com uma sensação estranha: querem ser compreendidas, mas ao mesmo tempo fazem tudo para não serem realmente vistas.

Contam histórias bem organizadas. Explicam os acontecimentos com clareza. Têm até alguma capacidade de análise sobre si mesmas. Ainda assim, algo essencial permanece protegido.

Não se trata de uma mentira. Trata-se de defesa.

Ao longo da vida aprendemos que mostrar certas partes de nós pode ser perigoso: a fragilidade, o desejo, a raiva, a dependência… E assim, vamos desenvolvendo versões de nós próprios que funcionam melhor no mundo. Mais controladas, mais aceitáveis, mais seguras para nós. 

O problema é que essas versões mais seguras, também criam distanciamento. Nas relações íntimas e muitas vezes também na terapia. 

Aquilo que realmente transforma não é a explicação do que sentimos, mas o momento em que algo mais cru aparece. Aquela emoção que não estava planeada, uma frase que sai antes de ser pensada, um silêncio mais longo. 

Ser visto raramente acontece através do discurso perfeito, organizado.

Acontece quando, por um instante, deixamos cair a necessidade de nos organizarmos para o olhar do outro.

E é muitas vezes aí que começa a verdadeira terapia, o trabalho mais profundo. Talvez seja por isso, que a terapia não nos ensina tanto a dizer melhor, mas a suportar melhor aquilo que emerge quando deixamos de controlar.

E, aos poucos, aquilo que começa no setting terapêutico, esse pequeno risco de não se esconder, de não se organizar para ser aceite, vai encontrando lugar fora dele. Como uma versão de si mais inteira, mais consciente, e por isso mais livre para existir sem tanto esforço de contenção.

Por Francisca Oliveira – Equipa Silvia Dias

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