A intimidade e o que fica quando a rotina tenta ocupar tudo

A intimidade não desaparece de um dia para o outro, vai-se diluindo. Entre uma possibilidade de coisas da vida que se metem no meio: o trabalho, os filhos, as responsabilidades, os compromissos e o cansaço acumulado, o casal pode começar a funcionar mais do que a sentir.

Em casal está-se muitas vezes em modo: organiza, resolve e gere.

E encontram-se cada vez menos com a intimidade que existia no casal. Sem se aperceberem, passam de amantes a parceiros logísticos. E a relação, que antes era lugar de encontro, torna-se um espaço de tarefas. Mas é importante referir que a intimidade não é apenas sexo. É também sentir-se visto, ser escutado sem julgamento, poder dizer “não estou bem” e ainda assim ser acolhido. É saber que, no meio do ruído do mundo, existe alguém que ainda nos reconhece.

Quando a rotina parece ocupar tudo, o que se perde não é apenas o toque, mas sim a presença. A intimidade emocional pede tempo e consciência. Pede-nos que tenhamos coragem de abrandar quando tudo pede para termos pressa.

Que bom que é quando um casal tem intimidade para se perguntar “como estás, verdadeiramente?” e de ouvir a resposta sem tentar corrigir, defender ou minimizar.

Pode ser um erro o que muitos casais acreditam muitas vezes: que a intimidade volta sozinha, que é apenas uma fase ou que quando os filhos crescerem, quando o trabalho acalmar, quando houver menos cansaço… tudo regressará ao lugar.

Mas a intimidade não regressa assim por acaso, é uma coisa que se constrói com tempo, disponibilidade e presença. Pode construir-se ou reconstruir-se nos pequenos gestos e nos pequenos encontros em que verdadeiramente se olham. Pode ser através de uma mensagem inesperada durante o dia, num toque demorado, numa conversa difícil que foi adiada vezes demais, ou numa vulnerabilidade partilhada quando seria mais fácil ficar em silêncio.

A verdade é que os desafios emocionais e relacionais fazem parte de qualquer relação. Importante será não os evitar, mas sim perceber como os atravessamos. Quando existe autoconhecimento profundo, podemos começar a perceber o que nos afasta. Os padrões de defesa de cada um, que nos protegeram a vida toda. O silêncio como proteção, uma crítica como um pedido disfarçado de atenção, uma distância como medo de não sermos suficientes.

E quando existe coragem para olhar para dentro, deixamos de culpar apenas o outro. Passamos a assumir alguma responsabilidade emocional.  E é aqui que pode começar a verdadeira transformação. O equilíbrio emocional não significa ausência de conflito, significa capacidade de permanecer na relação mesmo quando é desconfortável. Significa saber expressar necessidades sem atacar, saber ouvir sem se fechar. 

A intimidade não é um luxo, é uma necessidade relacional profunda. Cuidar da intimidade é um acto de amor, mas pode ser também um acto de coragem porque exige presença e essa presença pede vulnerabilidade.

E, portanto, talvez o mais importante não seja perceber porque é que a intimidade desapareceu, mas sim se estamos dispostos a reencontrar-nos com verdade?

Por Maria Gama – Equipa Silvia Dias

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