

A terapia de casal é, muitas vezes, vista como um espaço de reconciliação, de diálogo e de reconstrução do vínculo. Mas há uma questão essencial que precisa de ser colocada com clareza: todas as relações são passíveis de intervenção em terapia de casal?
A resposta, embora difícil, é não. Quando a violência entra na relação aquilo que está em causa já não é apenas a qualidade do vínculo – é a segurança. E sem segurança, não há base para o trabalho terapêutico. E ignorar isso pode colocar em risco aquilo que a terapia deve proteger acima de tudo: a segurança emocional — e física — de cada pessoa.
O que entendemos por violência no casal?
Quando se fala em violência, muitas pessoas pensam apenas em agressão física. Mas, na prática clínica, o conceito é muito mais amplo. A violência no casal inclui qualquer comportamento que gera medo, intimidação ou controlo sobre o outro. Pode manifestar-se de várias formas:
- desvalorização constante
- humilhação ou crítica destrutiva
- controlo de comportamentos, contactos ou decisões
- manipulação emocional
- ameaças (explícitas ou implícitas)
- explosões emocionais que deixam o outro em estado de alerta
Mas há algo ainda mais importante do que a forma: o impacto. Falamos de violência quando deixa de ser possível criar segurança — dentro e fora da relação.
Sinais clínicos de que estamos perante abuso
Em contexto terapêutico, há indicadores claros de que a relação pode estar marcada por abuso:
- Impossibilidade de criar segurança na sessão e após a sessão
- Um dos parceiros expressa medo do outro
- O parceiro que agride nega responsabilidade ou minimiza o impacto
- Não é possível estabelecer acordos de segurança fora da terapia
Nestes casos, a relação não está num lugar onde a vulnerabilidade possa emergir de forma segura. E sem vulnerabilidade, não há processo terapêutico possível em casal.

Porque a terapia de casal não é o espaço certo nestes casos
A terapia de casal assenta na criação de um vínculo emocional seguro. O objetivo é ajudar os parceiros a sentirem que o outro está disponível, é responsivo e é emocionalmente acessível. Mas a violência quebra exatamente essa base. Quando existe medo — medo de falar, de discordar, de expressar emoções — não há espaço para vulnerabilidade. E sem vulnerabilidade, não há verdadeira mudança emocional.
A terapia de casal pressupõe que ambos os parceiros conseguem, em algum grau, estar presentes e acessíveis um ao outro. A violência impede isso.
Violência não é conflito
É fundamental distinguir conflito, de violência. Conflitos fazem parte de qualquer relação. Envolvem diferenças, frustração, discussões. Podem ser intensos, mas não implicam medo nem intenção de ferir o outro. A violência, por outro lado, implica intimidação, dano e desequilíbrio de poder.
Na terapia de casal, trabalhamos com conflito. Quando há violência, a abordagem precisa de ser outra.
O que fazer então?
Quando existem sinais de abuso, a prioridade não é reconectar o casal — é garantir segurança.
Isso pode implicar:
- acompanhamento individual
- intervenção especializada em violência
- criação de uma rede de apoio
- definição clara de limites e proteção
Só quando a segurança está restabelecida, quando existe responsabilização consistente e quando o medo deixa de estar presente, pode ser considerada, com cuidado, a possibilidade de terapia de casal.
Por Daniela Martins – Equipa Silvia Dias
