Sobre o “Deixar Ir”

Há pessoas que já não estão na nossa vida, mas continuam a viver dentro dela.

Já não estão presentes nas conversas, ou nos encontros, mas invadem os nossos pensamentos, as nossas memórias, e as perguntas que insistem em voltar quando tudo fica em silêncio.

E, por mais tempo que passe, há uma parte de nós que não consegue simplesmente “deixar ir”. Quando dizemos “não consigo deixá-lo/a ir”, muitas vezes parece que estamos a falar do outro. No entanto, na maioria das vezes, estamos a falar de nós. Estamos a falar do que sentimos, daquilo que esperávamos e imaginámos que poderia ter sido o futuro. 

A verdade é que não se trata apenas de uma pessoa que não foi embora por completo. É também uma história que não teve o fim que queríamos e desejávamos. E, por vezes, ficamos presos quando há perguntas sem resposta. Porque, por um lado, não houve uma explicação suficiente, não houve um encerramento e porque houve silêncio quando aquilo que realmente esperávamos era clareza. E a nossa mente, quando não entende algo tenta preencher estes vazios, reescrevendo conversas, imaginando diferentes cenários, numa tentativa de procurar sentido onde este talvez já não exista.

E com isto, há partes de nós que ficam presas no “e se…”. Este “e se…” é um lugar sombrio onde nos podemos perder e do qual nos podemos tornar reféns emocionalmente: “E se tivesse sido diferente? E se eu tivesse dito outra coisa? E se ainda houvesse uma hipótese?”. A questão é que este tipo de pensamentos mantém a possibilidade, não mantém a pessoa.

E, às vezes, é mais difícil largar a possibilidade do que enfrentar a realidade. 

O “deixar alguém ir” é uma decisão emocionalmente exigente e também física. O nosso corpo lembra-se, reage, procura e sente falta de algo que já não existe. E é por isso que este processo não é imediato ou fácil.

Há dias em que parece que já está tudo bem e seguimos em frente. Outros em que tudo volta como se fosse a primeira vez que a pessoa partiu. E é importante perceber que isso não significa que não houve evolução, significa apenas que o processo não é linear – vão haver altos e baixos.

E este “deixar a pessoa ir” não é apagar a história, não é fingir que não aconteceu, nem desvalorizar tudo o que foi vivido. É sim permitir que aquilo que existiu deixe de nos consumir e de nos ocupar tanto, é de certa forma devolver espaço ao presente, ao “aqui e agora”.

E, enquanto uma parte de nós vive no passado, outra parte fica impedida de avançar completamente. Ao invés de nos questionarmos “porque é que não consigo?”, talvez possamos refletir sobre “O que é que ainda está preso aqui dentro? O que é que esta ligação representa para mim? O que é que ainda não consegui elaborar?”. Estas são perguntas que, muitas vezes, começam a ganhar forma e corpo quando olhamos para dentro com mais honestidade, especialmente nos processos terapêuticos, onde existe espaço para dar nome ao que sentimos sem pressas e sem julgamento.

E, com o passar do tempo, há dias em que a memória dói menos.

Em que o pensamento não fica tanto tempo.

Em que o corpo já não reage da mesma forma.

E sem nos apercebermos deixamos de segurar com tanta força.

Não porque esquecemos, mas porque finalmente começamos a voltar a nós.


Por Maria Margarida Ramos – Equipa Silvia Dias

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