O que sustenta a relação quando amar não chega?

Há uma ideia persistente de que o amor, por si só, deveria ser suficiente para sustentar uma relação.

Como se sentir fosse garantia de continuidade.

Como se a intensidade do vínculo resolvesse aquilo que, na prática, exige trabalho, consciência e presença.

Mas, em clínica, vemos outra coisa!

Vemos pessoas que amam e que, ainda assim, não conseguem ficar.
Vemos pessoas que ficam, mas à custa de si próprias.

Porque o que está em causa não é apenas o amor. É a forma como cada um aprendeu a estar em relação.

Uma relação não se constrói apenas com aquilo que sentimos pelo outro, mas com aquilo que conseguimos fazer com o que sentimos. E isso depende, muitas vezes, de histórias anteriores à própria relação.

Há quem tenha aprendido que amar implica adaptar-se.
Há quem tenha aprendido que precisar é perigoso.
Há quem tenha aprendido que o outro pode desaparecer a qualquer momento.

E, sem nos darmos conta, levamos tudo isso para dentro das relações.

É por isso que, muitas vezes, os conflitos não são sobre aquilo que parecem ser!

Não são apenas sobre tarefas, mensagens por responder, formas de educar os filhos ou diferenças de opinião. São sobre algo mais silencioso e mais profundo:

Sobre sentir-se visto ou não.
Sobre sentir-se escolhido ou não.
Sobre poder confiar ou estar sempre à espera que algo falhe.

É por isso que o trabalho terapêutico com casais não passa apenas por resolver conflitos, mas por algo mais exigente:

Ajudar cada pessoa a reconhecer o seu próprio funcionamento dentro da relação.
A perceber de que forma se protege e a que custo.
A encontrar formas de se aproximar do outro sem se perder de si.

Uma relação não precisa de ser perfeita para ser segura.

Mas precisa de ter espaço para nomear o que dói; para reparar o que falha; e para sustentar a vulnerabilidade sem que isso se torne ameaça. 


Por Francisca Oliveira – Equipa Silvia Dias

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