Amar sem nos perdermos

Existe uma ideia de que termos autonomia emocional significa não precisar de ninguém. Ser-se independente, resolver tudo sozinha/o, não depender de ninguém.

Mas, na verdade, a autonomia emocional não é afastamento, é consciência.

É saber quem somos, o que sentimos e o que precisamos, mesmo quando estamos numa relação. É conseguir estar ligado ao outro sem nos perdermos de nós. Estarmos próximos, mas sem nos anularmos, porque amar não deveria implicar desaparecer.

Quando não existe autonomia emocional, a relação pode passar a ocupar um lugar que não lhe pertence. Torna-se a fonte principal de segurança, de identidade e de validação. E, pouco a pouco, deixa de ser um espaço de encontro, para passar a ser um espaço de necessidade. 

É aqui que podem surgir alguns dos desafios emocionais e relacionais. A dependência do outro para nos sentirmos bem e o medo constante de perder. A dificuldade em lidar com frustração ou distância e pressão invisível que se coloca sobre a relação. E quando a relação carrega este peso, começa a desgastar-se. Não porque não existe amor, mas porque esse amor deixa de ser livre.

A autonomia emocional pode significar não colocar no outro a responsabilidade de preencher aquilo que só pode ser construído e preenchido dentro de nós. Significa reconhecer as próprias emoções, saber regulá-las e assumir responsabilidade por elas. 

Mas isto exige coragem, muita coragem para olhar para dentro, reconhecer padrões, para nos ajudar a perceber de onde vêm certas necessidades, certos medos, certas reações.

Exige vulnerabilidade e humildade para admitir: “há partes de mim que ainda procuram fora aquilo que não aprendi a dar a mim próprio/a.” É neste caminho de autoconhecimento profundo que começa a transformação e que é possível alcançar na terapia. 

Quando desenvolvemos equilíbrio emocional, a relação deixa de ser um lugar de carência ou dependência e passa a ser um espaço de escolha, de presença e de partilha consciente.

As relações podem ser um lugar onde existe ligação, mas também espaço, onde pode existir proximidade, mas também individualidade. Onde amar não implica perder-se, mas, pelo contrário, permite encontrar-se ainda mais. Sermos autónomos emocionalmente não é afastar as pessoas, mas sim aproximarmo-nos com mais verdade.

Esse equilíbrio ajuda a sustentar relações mais conscientes, mais autênticas e acredito que verdadeiramente felizes.


Por Maria Gama – Equipa Silvia Dias

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