Sobre a ânsia de querermos “Estar Bem”

Chegamos à terapia, muitas vezes, com uma mentalidade de urgência.

Queremos um diagnóstico rápido, uma ferramenta prática, algo que silencie a angústia em tempo recorde. Tratamos a nossa dor como um erro de software que precisa de ser corrigido para que possamos voltar a ser produtivos, eficientes e, teoricamente, felizes.

Esta pressa é, na verdade, a nossa tentativa de ganharmos algum controlo perante a dificuldade de suportar este vazio e o medo e a incerteza que surge num processo de mudança. O verdadeiro desafio está neste intervalo entre o saber e o sentir, tal como o tempo de uma semente debaixo da terra. Aos olhos de quem observa de fora, parece que nada está a acontecer. Não há flores, não há frutos, apenas terra silenciosa. Mas é nesse escuro, longe da nossa visão e olhar racional, que as raízes estão a ganhar força para sustentar o que virá depois.

Não se apressa o desabrochar de uma flor, nem se ordena que o luto termine na próxima segunda-feira. Existe um tempo orgânico que devemos respeitar para que deixem de ser apenas pensamentos na nossa cabeça e se tornem sentimentos no nosso corpo.

Muitas vezes, o que mais nos faz sofrer não é a tristeza ou o medo em si, mas a nossa luta interna constante contra estas emoções que surgem. É a camada de culpa que colocamos sobre a dor: “Eu já devia ter superado isto”, “Eu não devia estar a sentir isto outra vez”

No entanto, a vida não é uma linha reta que nos leva da disfunção à perfeição. Ela assemelha-se mais a uma espiral. Com a terapia é possível irmos passando pelos mesmos lugares, pelas mesmas dores, mas com uma consciência nova e diferente, com mais espaço interno, com menos autocrítica e com mais carinho por nós mesmos.

E, por isso, o trabalho terapêutico mais profundo não será sobre “consertar o que está errado”, mas sobre aprender a habitar e sentir o presente, mesmo quando este é desconfortável. É descobrir que, quando paramos de lutar desesperadamente contra o que sentimos, a energia que gastamos nesta guerra interna pode passar a ser investida na nossa vida, ao invés de continuarmos a sobreviver, apenas.  

E esta vida, que é única e irrepetível, não começa quando os problemas terminam e a dor passa. Não. Ela acontece precisamente no meio deles. E aprender a respeitar o nosso próprio ritmo,  sem nos culparmos ou impormos prazos de validade para a dor é, talvez, o maior gesto de amor que podemos ter com nós próprios. 

E é aqui que a terapia surge como um espaço que não nos ensina a “correr” mais rápido, mas sim a caminhar sob o chão de forma mais firme, consciente e presente. 

Por Maria Margarida Ramos – Equipa Silvia Dias

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