

“Eu sei que isto não me faz bem, mas parece que volto sempre ao mesmo tipo de pessoa.”
Esta é uma frase frequentemente ouvida em contexto clínico e que traduz uma inquietação profunda: a sensação de estar preso a um padrão relacional que se repete, apesar do sofrimento que provoca.
A forma como nos relacionamos com os outros é construída muito cedo, a partir das primeiras experiências de vínculo na infância. É nessas relações iniciais que aprendemos muitas vezes o que é o amor, o que podemos esperar do outro e o que precisamos de fazer para não o perder. Mais tarde, na vida adulta, tendemos a procurar relações que, de alguma forma, nos são familiares, mesmo que não sejam seguras ou satisfatórias.
Do ponto de vista psicológico, o que é familiar transmite uma sensação de previsibilidade. Mesmo quando envolve dor, rejeição ou instabilidade, esse padrão é conhecido e, por isso, menos ameaçador do que o desconhecido.
Outro fator importante é a tentativa inconsciente de reparação. Muitas pessoas entram repetidamente em relações semelhantes numa tentativa de “corrigir” experiências passadas: ser finalmente escolhido ou amado. No entanto, ao escolher parceiros com características parecidas, acabam por reviver o mesmo desfecho, reforçando sentimentos de frustração e inadequação.

A autoestima também desempenha um papel central. Quando existe uma crença profunda de não merecimento, relações desequilibradas podem parecer normais ou até inevitáveis. Assim, o padrão mantém-se não porque a pessoa “gosta de sofrer”, mas porque esse modelo relacional confirma uma narrativa interna já conhecida.
Um aspeto fundamental é que não é apenas a pessoa que fica presa num padrão, o próprio casal constrói e mantém um ciclo relacional. Os conflitos repetidos não são resultado de falhas individuais, mas de padrões de interação emocional que se tornam automáticos. Cada elemento do casal reage às emoções do outro a partir das suas próprias inseguranças, medos e necessidades não expressas. Nestes padrões, um comportamento tende a desencadear o outro: quanto mais uma pessoa procura proximidade ou confirmação, mais a outra se pode afastar; quanto mais uma se fecha ou se protege, mais a outra intensifica a procura. Com o tempo, o casal passa a ver o outro como o problema. No entanto, o verdadeiro inimigo é o padrão relacional, não as pessoas envolvidas.
A mudança acontece quando o casal consegue reconhecer esse ciclo, compreender as emoções subjacentes e criar novas formas de resposta, mais seguras e conectadas. Assim como observar os próprios padrões, questionar o que é familiar versus o que é saudável e desenvolver maior consciência emocional permite criar espaço para escolhas diferentes. Este processo, muitas vezes, beneficia de acompanhamento psicológico, onde é possível compreender a origem desses padrões e construir novas formas de se relacionar.
Repetir o mesmo tipo de relação não é um sinal de fraqueza, mas um convite à reflexão. Quando nos perguntamos “o que este padrão me está a tentar mostrar?”, abre-se a possibilidade de mudança.
Porque relações diferentes começam, quase sempre, com um olhar diferente sobre nós próprios e a relação.
Por Daniela Martins – Equipa Silvia Dias
